Carnaval

Era de prática comum na cidade, o carnaval. Mesmo quem dizia não gostar sabia, quando passava do lado de fora da janela o bloco de rua, as marchinchas, que acabavam por sair da boca no ritmo assobiado, querendo-se ou não.
Ano após ano o tal do carnaval ia ganhando mais e mais adeptos, sendo o principal motivo de tal aumento estatístico derivar do aumento da taxa de natalidade, proveniente do aumento de sexo que fazia-se em cada carnaval. No entanto faz-se necessária a explicação de que o carnaval, de forma alguma nasceu ou desenvolveu-se para ser uma festa símbolo da promiscuidade. Apenas tem como objetivo divertir e, querendo-se ou não, o sexo é símbolo de enorme diversão em muitos lugares, culturas e países do mundo.
Quando eu digo que no carnaval não havia tristeza, assumo isso com argumentos. Explico: Em 1999, por exemplo, dizia-se que o mundo ia acabar na virada do ano. Logo, o carnaval daquele ano seria o último da história. Isso de forma alguma afetou a festa, pelo contrário, muitas marchinchas foram criadas com o fato do fim eminente, marchinchas essas proporcionais ao número de sexo que foi feito. E quando eu digo que em novembro daquele ano nasceram muitas crianças, é necessário que eu diga isso com exagero.
Tenho em vista que já provei meu ponto. Portanto venho então a finalmente, após muito falatório pouco explanatório, explicar o fato que sucedeu-se no fatídico ano passado.
Era sábado de carnaval e, quando se percebeu o que estava acontecendo, ninguém realmente soube o que fazer. Simplesmente a cidade do Rio de Janeiro amanheceu com o Sol a pino, num clima ótimo para o carnaval, mas a festa simplesmente não acontecia.
Não haviam blocos na rua, não haviam fantasias de pena de pavão nem carros alegóricos. Simplesmente o carnaval não acontecia.
No domingo, as pessoas já começavam a preparar suas teorias. Nenhuma delas, claro, fazia qualquer sentido. Por Deus, algumas pessoas chegaram até a botar papel alumínio nas cabeças, pensando que fossem os alienígenas.
Na segunda o choque foi o maior, pois todos começaram a perceber que os desfiles não passavam na televisão simplesmente pois não estavam acontecendo. Era triste.
Pessoas em casa começavam a entrar em níveis graves de depressão e na quarte feira os lixeiros, desanimados com a vida sem carnaval, tiveram que pedir ajuda dos bombeiros pois não haviam lixo para ser varrido das ruas, apenas corpos de pessoas que suicidavam-se de seus apartamentos.
Todos foram cremados numa clara alusão as cinzas da quarta feira.
Após o feriado as pessoas começavam a voltar a sua rotina normal mas no fundo sabiam que o ano não seria mais o mesmo pois não tinha acontecido o carnaval, e se não havia acontecido o carnaval não havia mais motivo para se viver pois a felicidade era o carnaval. Ou o contrário.
Estamos em dois mil e treze, na véspera de um novo carnaval e não sabemos o que esperar. Rezo, todas as noites para Deus permitir que haja um novo carnaval. Para isso rezo um pai nosso, uma ave maria e canto uma marchinha diferente a cada dia. Rezo também para o diabo, pois nao sei se tamanha diversão só pode ser provida pelo divino.

Diogo

Odin

Enfiou a lança bem fundo em seu próprio peito. Gungnir fez com que o sangue saísse devagar pelos cantos de onde a lâmina estava enfiada. Odin pegou a enorme corda prateada que pendia de seu cinto, deu vários nós amarrando as duas pernas fixamente e jogou por cima de um dos galhos o outro lado da corda. Assobiou alto e o cavalo de oito patas veio rapidamente, lá embaixo da colina até ali no alto, ao pé da árvore. Amarrou a ponta da corda no pescoço do animal e disse para que o bicho o puxasse.
Ali começou então, o seu ritual. Era o primeiro dia dos nove que passaria de cabeça para baixo, com a própria lança fincada no peito. Respirou fundo e os olhos fechou.
Quando os abriu não sabia mais onde estava. A boca seca e a fome o assoalavam. O machucado fazia o peito queimar com a inflamação. Ainda não haviam começado os delírios mas a cabeça já começara a rodar e já quase conseguia enxergar os pés no chão. O céu vermelho do crepúsculo o fazia se lembrar do sangue das muitas batlhas dedicadas a ele. E assim, lembrando de todas as guerras que lhe foram ofertadas conseguiu vencer até a lua bater seu ponto bem cheia lá no alto. Não aguentou mais e os olhos fechou.
Uma dança de caleidoscópios multicoloridos o fazia ficar enjoado, seus sonhos eram rasos e bem vazios, tão desolados quanto estava seu corpo.
Na noite do segundo dia maldizia a tudo e a todos. O sacríficio até ali parecia ter sido a pior escolha que um Deus como ele poderia ter feito.Exclamava em todas as línguas conhecidas e desconhecidas pelo homem comum. Não sentia mais os braços senão teria tirado a espada da bainha e cortado a corda.
Ao menos no nascer do sol do quarto dia parecia estar mais contente. O sorriso na cara significava apenas uma coisa: A dor no peito era tão dilacerante que o corpo permitiu que ele esquecesse o sentimento e abandonou qualquer tipo de comunicação daquela parte do corpo com o restante. Os respiros fundos, que antes eram cada vez mais doloridos, finalmente pareceram ser a única coisa que o manteria a salvo pelo tempo restante, acalmando-o e enchendo seus órgãos de ar, já que comida e bebida não faziam mais parte de seu tipo de vida.
Na noite do sexto dia começou a ter febre e os piores delírios começaram naquele momento. Não importava fechar ou abrir os olhos, já que a paisagem era igual. Estava num enorme salão, ornado de colunas estranhas e luzes tão fortes que ele teve medo de ficar cego do olho restante. Dentro do salao, em volta de uma lareira, podia ver dois homens sentados. Um tinha no lugar da cabeça de homem uma cabeça de falcão, com a pele do restante do corpo sendo de um moreno escuro. O outro era pálido como a neve e tinha uma enorme barba e cabelos brancos. Odin não conseguia olhar o homem sem pensar que não fossem cabelos ou barbas, mas sim nuvens, pois cada vez que coçava a cabeça os sons de trovão pareciam ecoar no salão. Os dois olhavam para ele e lhe falavam algo, que Odin só conseguia responder:
-Mas dói, como dói. Tirem-me daqui.
Os dois riam e falavam que ele tivesse paciencia:
-Passará rápido e num piscar de olhos coisas valiosas você terá, espere e tenha calma.
Odin morria de frio, embora ardesse com os mais de quarenta e dois graus de febre. Não conseguia saber se estava no salão, com os dois homens o levando para sentar-se perto da fogueira pois tremia de frio, ou se estava ao pé da árvore, amarrado, inerte e com uma ferida que começava a feder e a adquirir uma coloração mais arroxeada e escura.
No alvorecer do nono dia os olhos já não tinha mais cor, os pelos do corpo estavam todos brancos e podia-se ver as costelas de Odin. A boca sangrava de tão seca e rachada que estava. Mas o pior era a enorme ferida, que começava a gangrenar e a mancha negra ia agora do pescoço até o umbigo. De quando em quando tinha convulsões e só não babava pois não havia gota alguma de nenhum líquido em seu corpo.
Queria chorar e tinha medo que morresse. Só era imortal por causa das maçãs douradas, e sabia que o efeito da última maçã que comera poderia acabar dali há pouco tempo. Nunca pensara tanto em acabar com algo que começara.
Assim que as estrelas começaram a aparecer no céu noturno, começou a ter a esperança renascendo dentro de si. De tanta emoção dos olhos começaram a cair lágrimas de sangue. E daquelas 24 gotas de seu sangue Odin pode ver que em algo haviam se tranasformado.
Gritando por liberdade, agarrou pedra a pedra do chão e finalmente se viu libertado, da lança, da corda, da dor, dos ferimentos e das doenças, da fome e da sede.
Os cabelos, antes negros e volumosos agora eram todos brancos, com algumas raras exceções em tons de cinza. Estava mais magro, sim, mas ainda era forte e não havia mais sinal de gangrena em seu corpo. Olhou para as mãos e viu as pedras, rubis, cada uma com uma letra diferente.
Pegou as runas, guardou-as em uma sacola e finalmente deu-se por satisfeito pois finalmente sabia de tudo no Universo.

Diogo

Saudades

Então eu olhei o espelho e vi nele a saudade refletida em sua superfície. Sabia que era o mais fiel retrato de mim, já que minha vida, ultimamente, tem sido recordar-me do passado mais simples e inocente de minha infância, do passado mais inconstante e extremamente antônimo do rotineiro que eram os tempos de colégio, do passado mais revolucionário e acelerado que foi a adolescência.
Hoje me olho nesse espelho e não vejo o velho que sou, com as rugas marcando minha cara, o cabelo, já tão escasso na cabeça, branco como um pedaço de nuvem, da mesma cor da barba rala. Os óculos de armação fina, mas com lentes tão grossas que triplicam o tamanho de meus olhos. Hoje eu olho e vejo o homem que fui enquanto trabalhava, sempre honesto e responsável, o homem que botou comida em casa, que pagava todas as contas, que não podia dar-se ao luxo de ficar doente, pois não podia deixar de ganhar o dinheiro no final do mês.
Soco o espelho, com todas as minhas forças. O vidro estraçalha sobre meu punho cerrado. Vejo cortes imensos, e o sangue começa a escorrer descontrolado.
Quando a enfermeira entra no quarto, eu estou chorando, inconsolável, na cadeira de balançar, com banco em vime, belíssima, que me foi dada pela minha esposa quando nos casamos e que levo comigo até hoje. O sangue pinga em grandes gotas no chão do quarto, e na outra mão o copo cheio de whisky até a borda, no melhor estilo cowboy, também pinga, mas em doses bem menores.
A gentil moça pula as poças e tenta me consolar, falando que a dor dos cortes vai passar assim que eu ser medicado. Mal sabe ela que choro não pelos cortes profundos feitos pelos enormes cacos de vidro, mas sim choro pelos cortes profundos feitos pelos enormes vazios da minha vida que minha memória fez lembrar-me.
Sei que nunca dei uma flor a minha mulher, nunca tirei um dia de folga para passar com meus filhos, nunca beijei tantas mulheres quanto deveria, nunca aproveitei os amigos quanto era preciso.
Fui um Casmurro, como o do livro e arrependo-me disso plenamente. Por mais que as memórias ainda sejam rejuvenescedoras, no fim das contas sempre trazem o gosto amargo das coisas que deveriam ter sido feitas, ditas, escritas, sujeitas, mas não foram.
E no fim das contas o que nos resta, na vida, é esperar num quarto de um asilo, que o médico venha, suture os machucados de suas mãos com um ponto em U, que você tenha sorte de ter sido medicado com qualquer droga que te dê alguma taquicardia e que isso causa, em você aquele maldito infarto que você tanto espera.
Mas no outro dia é quando, na ressaca moral, você percebe que nada disso aconteceu e você ainda vivo caminha até seu espelho e vê, assim que entra, no reflexo da superfície a sua saudade refletida.
E por mais que você espere que venha um chapeleiro e lhe chame para o país das maravilhas por ali, isso não acontece, pois não és nenhuma Alice. Com sorte, na hora de tomar os pontos, você os leve na cabeça ao invés dos punhos. Isto é o máximo que eu velho como eu pode almejar.
No final não existe amor, compaixão, amizade, nada. Às vezes até a morte se atrasa e esquece-se de te matar. O que sobra são só lembranças malditas no espelho e fios pretos de sutura espalhados pelo corpo.

Diogo

Fiat Lux

Celso tem uma doença. Gripe. Coisa simples se for à farmácia ele toma uma benegripe e alguns dias depois melhora. Celso não gosta de remédios por causa dos supositórios que tomava quando era pequeno.
Tudo bem. Celso pode tomar chás, de cidreira, mel e limão, alimentar-se direito e repousar decentemente que o seu corpo se encarregará de curar-lhe.
Mas Celso vai para a Igreja consultar seu pastor. E o pastor põe a mão na sua cabeça e diz:
-Está curado.
E Celso vai para casa, toma sua cerveja e deita na sua cama. Acorda no outro dia ainda fungando, mas sabe que o pastor lhe curou e esse catarro deve ser alguma sobra que ficou. Normal.
Uma semana depois Celso está com febre, de uns trinta e oito graus e meio. Vai à Igreja novamente. Seu pastor põe a mão na sua cabeça e diz:
-Está curado.
Celso volta para casa, toma sua cerveja e deita na cama. Acorda no outro dia sem conseguir se mexer. Tira a febre e o mercúrio para na linha dos trinta e nove graus.
Celso não consegue entender. Seu pastor já apareceu na televisão. Curou paralisias, artrites, artroses, doenças que ele nem sabe falar. Por Deus, ele já até curou alguém de AIDS. Deve ter algo errado acontecendo para ele não curar sua gripe.
Celso volta à igreja. Dessa vez leva dinheiro. Deixa uma quantia razoável na sacola que passa. O pastor põe a mão na sua cabeça e fala:
-Está curado.
Celso no outro dia morre. A cerveja, aliada aos cigarrinhos que esporadicamente fumava, tomando força com a gripe mal curada acabou por abaixar sua imunidade, trazendo outras doenças para seu corpo e o matando.
No Céu, Celso pergunta a Deus:
-Por que o pastor não me curou?
E Deus, do alto de toda sua sabedoria, responde:
-Porque o pastor não é médico, curandeiro ou o que quer que seja.
-Mas não criastes os pastores para serem seus instrumentos, instrumentos para falarem suas palavras e fazer seu poder agir pelas mãos deles?
-Não. Eu criei o cérebro humano para serem meus instrumentos.
E Deus então sorriu, e voltou a jogar seu jogo de paciência.
E Celso sentou e usou pela primeira vez seu cérebro. E pensou.
Fiat Lux.

Diogo

Xuri

Sentando de pernas cruzadas no meio da floresta amazônica, o xamã entoa um cântico bem baixo, como se sussurrasse na orelha de alguém. A fogueira na sua frente crepita com o fogo e vai esquentando uma panela velha, de alumínio, apoiada por uma estrutura de gravetos.
Dentro da panela o xuri vai cozendo com outras folhas e plantas em água, que já ferve e vai soltando pequenas bolhas demonstrando seu estado.
O xamã, esporadicamente vai mexendo com um graveto o conteúdo da panela, devagar e sempre no senti horário, não mais do que sete voltas e conforme vai fazendo esse ritual vai entoando cânticos também para o conteúdo dentro da panela.
Quando o líquido começa a ficar alaranjado, o xamã pega uma casca de coco vazia e usa como copo para beber uma enorme quantidade do chá de xuri. A bebida quente desce queimando sua garganta, ardendo mais do que arderia qualquer aguardente fabricada em qualquer alambique do Brasil.
No começo nada acontece. E então o xamã vê.
Linhas coloridas se contorcem no meio da selva escura pela noite sem luar. Um. Tambor. Parece. Bater. No. Fundo.
A batida faz o corpo do xamã girar e girar, seja em torno do próprio eixo, seja em torno das árvores a sua volta.
Então o baque acontece e ele está no chão, deitado de barriga para o ar. No céu as estrelas que no céu cobrem a brilhar.
O Veado prateado brilha no céu, dançando nos olhos do xamã, que assiste ao baile celestial com um sorriso na boca, e assim que o Veado volta a sua posição ao lado da Ema ele começa a gargalhar, como um louco.
Levanta-se de súbito e então, nesse momento de vigia que está de pé é mago. Começa a soprar o fogo na fogueira com a sua boca, fazendo com que as chamas cresçam e lá dentro os lagartos possam dançar para ele.
Mais linhas começam a circulá-lo, mais plantas, animais e espíritos da selva parecem surgir ao seu redor.
Um macaco para na sua frente e põe o dedo indicador verticalmente na boca, fazendo o símbolo universal do silêncio para o xamã. O xamã repete o gesto, ajoelha-se e abraça o macaco.
Quando abre os olhos e os braços já vazios a maritaca canta alto no seu ouvido e ele é transportado para os céus, onde voa e vê todas as luzes brilhantes das cidades.
Seus olhos enxergam em 360 graus angulares, e talvez até em Celsius e Fahrenheits também.
O Sol então nasce. A abóbada na selva é azul e branca das nuvens.
O xamã abre os olhos. Os músculos estão doloridos, as costas doem, mas valeu a pena, mais uma vez. A fogueira, já em brasas, é coberta com terra e a panela vira mais um adereço a ser carregado em seu cinto. O xamã olha para cima, para baixo e agradece a cada árvore pela proteção.
Anda devagar, então, de volta para sua aldeia.

Diogo

Sonho

Tem uma espada nos meus pés. A espada é a única coisa que se sobressai na escuridão que me cerca. Tem a lâmina longa e prateada, e o cabo curto, mas bem desenhado e trabalhado. Eu pego a espada.
Sinto-me zonzo, meio perdido. Como cheguei aqui?
Não é hora para perguntas. Ouço atrás de mim um grito e olho para trás, vendo um lobo enorme vindo em minha direção. Por sorte ele escorrega num bueiro e rola para trás de um carro. Aproveito o momento e me projeto para frente, correndo dali. Meus membros parecem mais lentos, meus movimentos parecem mais distorcidos. Deve ser o terno cinza, com a gravata vermelha que eu visto. Eu continuo a correr e ouço um estrondo atrás de mim. O lobo conseguiu se levantar e desconta sua raiva no carro. Do meu lado vejo uma porta e arromba ela com um chute.
Lá dentro uma escada de incêndio. Eu subo, com o máximo de rapidez que meu terno permite. Antes de fazer a curva na escada olho para trás e vejo um velho na porta, com o sangue escorrendo pela boca.
Não sei quanto tempo demoro para subir todo o prédio, mas o medo me domina em toda a subida. O ar vai faltando a cada andar que eu passo e meus movimentos vão ficando mais e mais lerdos. Mas finalmente vejo a porta que vai me levar para a saída, lá em cima, quando finalmente fico de frente para ela, parece que não posso me mexer.
Minhas pernas parecem concreto, meus pés chumbo. Estou nu e travado, justamente quando ia alcançar a saída. Meus braços só tremem de medo. Ouço atrás de mim o barulho de patas. Sei que o lobo está atrás de mim.
De algum modo consigo me mover e abro a porta. O vento frio que bate no meu corpo faz os meus mamilos ficarem rígidos. Vejo finalmente a ponte que vai me tirar dali, me levar para um lugar melhor. Bato a porta atrás de mim, tranco ela com a chave e saio correndo em direção a ponte.
Quando o velho escancara a porta eu já estou no meio do corredor. Sinto-me salvo, pois só preciso chegar ao final e eu tenho uma grande vantagem. Mas então as paredes parecem que se estreitaram e começo a ter dificuldades para passar. Já chegando no final, e passando de lado pelo corredor, as paredes me prendem e não consigo me mexer. O velho lobo se aproxima com cada vez mais velocidade e eu só consigo fechar meus olhos antes de sentir o encontro de sua mão na minha cabeça.
A dor é excruciante. Meus olhos latejam com a dor. A pequena soneca no ônibus me fez bater com a cabeça na janela.

Diogo

Dentes

Como se fosse em câmera lenta a estrutura dura formada de dentina e esmalte caia no chão,  deixando atrás um pequeno rastro de sangue, pequeno mesmo, somente algumas gotas. A pancada na parede fora dura, tanto que o homem voara de boca na alvenaria. Meio incosciente ele cai no chão e seus olhos focam apenas em seu dente.
A escuridão conjura-se, como um demônio faminto pela alma de sua vítima, e o dente e toda a dor do ferimento se torna uma nuvem de fumaça. E então o homem salta da cama, com seus músculos tremendo. Havia caído mas estava de volta a realidade, com o relógio marcando as três e 52 da madrugada.
Passa a mão na testa suada e levanta-se calmamente, em direção ao banheiro da suíte. Liga a luz que fica em cima do espelho, a luz que demora uns segundos até ficar aquecida e realmente iluminar algo, mas não espera a luminosidade para tornar os objetos visíveis e já começa a lavar o rosto no escuro mesmo.
Abre os olhos enquanto a água gelada escorre do rosto e finalmente percebe que a luz acendeu. repara nas olheiras enormes, que constratam com a barba bem feita e o cabelo aparado, dando um aspecto de mendigo aquele homem bem afeiçoado. Balança a cabeça, aproveita a luz ligada e vai expelir sua urina no vaso sanitário. Volta para a cama sem dar descarga ou lavar as mãos, puxa a coberta para cima do corpo novamente e fecha os olhos para voltar a dormir.
De repente a sensação de que algo está errado vem a sua cabeça e então a lembrança suprimida, lá no fundo da mente, vem a cabeça. Nem sabe como aquela lembrança vem a mente mas lembra-se de quando era pequeno e a avó conversava com a mãe e uma cigana na copa de casa. A cigana era amiga de família e estavaali a fazer uma visita.
Só lembrava de uma coisa daquele dia apenas. Uma frase solta da cigana:
-Quem sonha com dente caindo, geralmente morre alguns dias depois.
Lembra também que estava comendo um pão suiço com manteiga e queijo minas e após essa frase da cigana a barriga ficara meio gelada e ele perdera a fome.
Não era o tipo de coisa que queria lembrar ali, deitado na cama, após sonhar com seu dente caindo. Mas lembrou-se. E após lembrar-se pensou em deixar para lá, cara, pois isso tudo é besteira. Já devia ter sonhado com dentes antes e nunca havia morrido, não era agora que ia morrer.
Fechou os olhos e voltou as suas tentativas de dormir. Mas quem disse que a paranóia é uma coisa que dá e vai embora no mesmo instante? Não conseguiu pregar o olho por mais de cinco minutos. Tentou virar na cama, sair debaixo da coberta, mas nada adiantava.
Derrotado levantou-se e dirigiu-se a cozinha. O relógio já marcava 4 e treze da manhã. Pegou uma garrafa de uísque, um pouco de concentrado de guaraná natural na geladeira, misturou uma dose de guarána para três de uísque e ficou ali, bebendo, na bancada da cozinha, apoiado no mármore escuro da pia.
Deixa para lá, pensou, é tudo besteira, daqui a pouco você tem que trabalhar e está preocupado aí, com um sonho besta. Mas a paranóia não queria deixar para lá.
-Puta que pariu, cigana de merda – disse amaldiçoando não sua própria cabeça doente que não o deixava sentir sono mas sim a cigana que tinha dito a muito tempo atrás uma superstição referente a sua criação.
O relógio já marcava cinco e vinte e cinco, ou 5 e 36, e o homem ainda continuava na cozinha, já no terceiro copo de uísque com guaraná. Dali a pouco já teria que se arrumar para ir ao trabalho, mas tinha dito a si mesmo que se conseguisse pegar no sono deixava o trabalho para lá e ficava em casa hoje.
Quando então foi tomar um novo gole, assim que o líquido entrou na boca, mas antes de descer pela garganta, sentiu uma fisgada na boca, uma pequena dor incomoda que o fez estalar a língua e exclamar.
-Ai!
Tinha sentido a fisgada no molar esquerdo, e já estava em tão nível de paranóia que deixou o copo de uísque cair no chão, lentamente, enquanto o líquido caia em pequena gotículas tenta voltar para seu recipiente. Ouviu de longe o barulho do vidro ao se espatifar. Estava mais concentrado em querer que a luz acendesse para que pudesse olhar-se no espelho e ver o que estava acontecendo com os dentes.
Assim que a lâmpada acendeu, abriu bem a boca e olhou o molar. Tudo estava certo. Graças a Deus. Até sentiu um peso nos olhos e uma vontade de bocejar. Enquanto boceja pensou em como teria sido mais fácil se tivesse ido olhar os dentes no espelho. Após o bocejo sorriu para si mesmo.
E foi aí que aconteceu.
O sangue pareceu brotar das gengivas e os dentes soltaram-se, um a um de sua boca, caindo todos devagar na pia, e todos seguindo o mesmo caminho do ralo pequeno da cuba alta. O sangue escorria aos litros da gengiva e o homem começava a tremer.
Que isso seja um sonho, pensava o homem recém banguela. Então o homem começa a enxergar tudo mais escuro e no pouco de visão que lhe sobra as coisas ao seu redor começam a embaçar, como se uma névoa tivesse nascendo ao seu redor. Sabia que estava desmaiando mas não entendia porque iria morrer.

Diogo

O Fenômeno

Penso que as cadeiras e mesa começaram a flutuar no fim do ano passado, mas posso estar enganado quando me refiro às datas. Não que seja velho, mas dessas coisas ninguém se recorda.

Moro sozinho há algum tempo, mais de cinco anos, e nunca tive medo, nem agora com minhas cadeiras e mesa que flutuam. Não sei explicar o motivo, não acredito em almas de outro mundo, mas também não me importo com as teorias que qualquer cético venha me dizer. Na verdade não me importo com as cadeiras e a mesa. Deixem que flutuem. É tudo muito estético, bonito de se ver mesmo, aqueles objetos vencendo a gravidade, quieto e silenciosos, sem se mexer, apenas ali desafiando a realidade. Ou pelos menos o conceito tangível de real.

Esse tipo de coisa acontece mesmo quando tem gente aqui em casa. Outro dia veio minha mãe, visitar-me. Trouxe pão e queijo branco, o famoso queijo minas. Largou as coisas aqui na cozinha e quando reparou nos objetos levitando, saiu correndo, fazendo o sinal da cruz e chamando pelo seu Deus. Se Deus ouviu é um títere e continuou a levantar a mesa e as cadeiras.

Não me entenda mal também a ponto de achar que elas flutuam o tempo inteiro. É de vez em quando mesmo, nem tão freqüente a ponto de importunar, nem tão esparso a ponto de não conseguir reparar ou dar falta do fenômeno. Eu como normalmente usando os móveis e todo o resto. Macarrão com almôndegas, arroz e feijão e estas coisas.

Nunca aconteceu de eu estar sentado nas cadeiras ou na mesa e elas começarem a flutuar também.  Parece que os espíritos, ou demônios ou eventos físicos cientificamente explicáveis que fazem esse tipo de coisa ocorrer não conseguem fazer sua mágica comigo em cima. No entanto não me entenda mal, não sou tão gordo quanto deva pensar. Não posso me definir como facilmente sustentável, mas não podem encarar-me como um desafio pesado. Peso-médio, talvez.

Às vezes penso que as cadeiras e a mesa só flutuam porque eu afirmo isso. Se eu ficasse calado, não pensasse nisso e não desse tanta atenção, talvez nada acontecesse. Mas acontece. Sei que a culpa não é minha, as coisas flutuam porque flutuam, mas no começo gostava de me fingir de Yoda ou Darth Vader e pensar que fazia aquilo com a Força.

No fim das contas as cadeiras e a mesa flutuam e eu continuo aqui, e convivemos em paz e tranqüilidade, elas sem me atacar, eu sem jogar elas fora ou queimá-las. É um casamento silencioso entre o estranho e inexplicável dos meus móveis comigo mesmo.

Diogo

Chuva

O estrondo do relampejo é tão sonoro e impactante que o chão treme. Não sabe-se se a tremedeira se dá de verdade ou apenas na mente da pessoa que ouve e sente aquele clarão de luz. Só sabe-se que o estrondo bate fundo, talvez até encoste na alma, mas sem machucar. Apenas assusta, mas não por maldade, pois é sua natureza de relampejo de fazer barulho, causar impacto e de repente tremer o chão.
Na rua vazia espera no ponto a menina, talvez mulher, com toda certeza uma adolescente. Universitária, de vestido vermelho meio rosado. Um tom de salmão. Espera alguma coisa, não só o onibus, mas alguma coisa. Algo que aconteça, que mude tudo, que gere reviravoltas, para que assim ela possa revirar-se junto. Sentiu o chão tremer por causa do relampejo, portanto resolveu ouvir música, pois é daquelas que acha que o chão só treme no relampejo pois se ouviu o estrondo.
Com os fones na orelha dá play. O aparelho tocador de música está no modo aleatório. O relampejo então vem da música, o chão treme novamente. O primeiro acorde vem forte do violino, da flauta, do violoncelo. É a sétima de Beethoven, ela reconhece o primeiro movimento.
Sente então a gota cair do céu. Por coincidência a primeira gota que caira do céu naquele dia caiu bem no meio da testa dela. Sentiu o impacto e olhou por alto. Teve pouco tempo de fazer qualquer coisa. Gota após gota foram caindo com um baque forte e surdo em seu corpo. Rapidamente saca da mochila seu guarda-chuva. Agora o impacto das gotas se dá naquele guarda-chuva chinês, comprado num camelô do Centro do Rio numa hora de necessidade.
Ela ainda espera o ônibus mais um pouco. Agora começou um tango de Piazolla. Música sentimental demais mas ela gosta. Ensaia devagar uns passos com os pés que se movem, pouco a pouco, no ritmo lento mas marcante da música. E ela começa a pensar que o máximo de reviravolta aquele dia vai ser aqueles pequenos passos de tango embaixo daquele ponto, esperando seu ônibus.
Espera mais algum tempo, tempo o bastante para o Sol conseguir furar algumas nuvens de tons de cinza escuro e dar um tom de veraneio a chuva que cai naquele fim de tarde, enquanto a menina espera o ônibus.
O raio veio de súbito, mas não sem antes avisar. Os relampejos, o primeiro movimento da sinfonia de número 7, as gotas e o tango significavam que ele estava vindo. Os especialistas dizem que o tocador de música dela tinha algum tipo de defeito eletromagnético que foi potencializado pelo guarda-chuva, que agiu como um pára-raio e realmente parou um. Ela levou um choque, mas não se preocupe, está bem, saudável e pronta para outra. Mas sabe ela que as vezes se tem o que deseja, pois ela teve sua reviravolta.

Diogo

Citologia

Eles me enxergam, eu sei disso. Eles sabem de mim, me observam, mas continuam a fazer tudo da mesma maneira, como se não se importassem.
Eu sou o deus deles, embora prefira que me chamem de Alfa e Omega. Eu decido se a Marina escova os dentes antes de dormir, ou se o Roberto calça um par de cada meia. Eles acham que tem o livre-arbítrio porque eu fiz alguém falar isso, mas no fundo eu mando em tudo.
E acho que eles sabem disso e isso me assusta, pois eles me enxergam. Eu tenho certeza que agora eles me enxergam, pois eu escrevi isso. Eles me observam, pois também contei desse jeito. E continuam a seguir com suas vidas, pois assim eu havia dito no início.
É foda eu começar a ter essas síndromes de perseguição e conspiração contra minha pessoa. Porra sou eu quem decide se eles vão me sabotar ou não, mas no fundo isso me assusta. Não quero que eles me sabotem, é legal ter o controle, poder fazer a diferença ou não, mas posso fazer isso de algum jeito involuntário, com o demônio do meu subconsciente, não sei. Não tenho controle sobre mim mesmo, não sou meu próprio deus, e meu subconsciente, bem, ele vive me pregando peças, como um tipo de bobo da corte, um palhaço. Um grandissísimo filho da puta, que no fundo sou eu mesmo tentando me sabotar.
Ah meu deus, estou tendo crises de identidade. E meus personagens ficaram assim também. O mundo todo parece mais estranho, de alguma forma as pessoas não trabalham mais, apenas vagam e falam coisas estranhas. Merda, não quero transformá-los numa baboseira new-age com papos sobre sustentabilidade.
Vou botar tudo em ordem novamente.
“Era uma vez”, blá blá blá. Dessa vez eles não sabem de mim, não sabem mesmo. Garanti isso, e garanto aqui novamente, Eles não sabem de mim. Novamente eu observo e eles continuam a viver suas vidas como se tivessem controles sobre elas. Agora vivem na idade média, ou um mundo parecido.
Merda, eles continuam a me olhar. Porra, todos os meus mundos levam a porra de uma entropia do caralho. Agora eles estão se matando, clamando por fadas, construindo altares de pedra.
Cansei de ser deus. Jogo as folhas fora e fecho a máquina de escrever. Já é noite, e ligo a televisão. Está passando aquele programa de pesca onde os caras se metem no meio do oceano e pescam caranguejos. Acabo dormindo.
Tenho a certeza de que, no fundo, tem alguém me observando. Tomara que ele não se incomode com o fato de eu também observá-lo, senti-lo, saber quem ele é, e continuar seguindo com a minha vida, embora a minha vida sejam só linhas num editor de texto e o que define meu futuro seja uma barra que fica piscando, esperando novas palavras que irão definir o que eu sou. Tomara que, diferente do que eu escrevo, essas palavras que me definem possam ser lidas, assim eu posso experimentar o que é existir não só nesses parágrafos mas sim na cabeça de cada um. Espero que não me achem prepotente e ditador, mas é que eu gosto das coisas da minha maneira.