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Sonho

Houve um sonho e uma embriaguez
e as palavras eram manchas de sangue
sobre o jardim.
Placas roubavam vidas e escondiam
rancores, as crianças não nasciam
e as ruas exalavam da morte seus
mais ácidos odores.

O poeta tinha na caneta uma espada,
mas o papéis foram trocados por
manchas sobre a mesa de escuras lágrimas.
A noite caia também dentro da pele, os
olhares ardiam de baixo das camas e até
as rosas tinham febre.

Lábios não eram mais lábios e o vento
era de asfixia, os homens bebiam suór
e as mulheres dormiam na cozinha.
Houve então um despertar e mais dúvidas
e outras companhias, e o poeta acordou
sobressaltado pois acabava de sonhar
com uma nova poesia.

 

Nathan

O irmão do Cupido

Há muito, muito tempo, dois seres foram criados. A um foi dado o trabalho de fazer as pessoas se apaixonarem, e para isso ele utilizaria-se de um arco e algumas flechas que, imediatamente quando perfurassem o coração do alvo, o fariam se apaixonar pela sua alma gêmea. Esse serzinho recebeu o nome de Cupido.
Essa lenda todo mundo conhece, e todo mundo fica feliz de contar. No entanto, pouca gente sabe que junto com ele nasceu o seu irmão. Para este foi dada uma foice e durante toda a eternidade ele teve o trabalho de cortar a ligação entre corpo e alma dos apaixonados que resolviam suicidar-se por amor.
Durante anos os dois cumpriram seu trabalho com exemplar disciplina e perfeição. O Cupido apaixonando Bogies e Bacalls, enquanto seu irmão era o responsável por jovens, e velhos, Werthers.
Cada dia, mês, século que se passava o irmão do Cupido ficava mais e mais cansado, triste, desiludido. Não entendia como um sentimento tão puro, simples e lindo como o que seu irmão fermentava nas pessoas podia causar tanta destruição, já que ele trabalhava muito mais que o Cupido.
Um dia, indo cumprir mais uma vez seu dever, decidiu intervir.
Enquanto o jovem botava a bala no pente do revólver ele falou:
“Pare, por favor. Me ouça um minuto. Por que você vai fazer isso, garoto? Você parece ter uns 20 anos no máximo?”
O garoto olhou calmamente no fundo dos olhos da entidade e falou:
“Faço isso por amor. Eu a amo, já tentei de tudo, tudo mesmo, mas ela não me dá bola, ela não me ama. Ela está feliz com o outro e eu aqui, um simples garoto que joga videogame e gosta de Star Wars.”
“Há anos eu faço isso garoto, eu tiro o laço da vida de pessoas como você, que se desiludiram com a paixão, e posso te dizer que isso não te trará nada de bom.”
“Trará a liberdade da vida cruel, que me oprime mostrando que os outros podem amar e ser felizes, menos eu”
“Não, menino, não. Embora meu trabalho seja o de te tirar a vida, eu não quero fazer isso novamente. Não em nome do amor. Já tirei a vida de pessoas em situações piores do que a sua, e mesmo assim não resolveu nada. Jovens românticos como você, pais de família, homenes e mulheres solitários. Tive que levar todos para ospiores lugares possíveis, tudo em nome do amor. Isso não é amor, amor não mata. Por favor, para com isso”
E pela primeira vez na história do mundo, um pequeno Deus desatou-se a chorar na frente de um humano. Chocado com a situação o garoto botou a arma em cima da mesa, e foi auxiliar o anjo em seu pranto.
Após algum tempo reconfortando-o, o garoto olhou nos olhos dele e falou:
“Olha, você me convenceu da besteira que eu ia fazer. Hoje, pelo menos, eu não me matarei. Daqui a um ano, se eu não mudar de idéia, você me encontrará e aí sim eu terminarei o que comecei hoje. De acordo?”
“Sim”
E o irmão do Cupido chegou em casa e correu para falar com seu irmão. Ao encontrá-lo sentado embaixo de uma árvore, polindo seu arco, sentou-se a seus pés e pediu um favor:
“Irmão, há séculos vivemos e trabalhamos juntos. Muitos dos que você acertou foram minhas vítimas no futuro, mas chegou a hora do inverso ocorrer. Uma vítima minha decidiu ter uma segunda chance. Mas se daqui a um ano ele não se apaixonar ele vai se matar novamente. Portanto lhe peço, mais, lhe suplico, que me ajude nisso.”
O Cupido levantou os olhos calmamente do arco, olhou no fundo dos olhos do irmão e o respondeu com sua voz grossa e forte para alguém do seu tamanho:
“Depois de todos esses anos fazendo o trabalho mais difícil de nós dois, você ainda assim acreditou até o fim no amor. E eu, o responsável por fazer os casais se apaixonarem e se amarem, desisti dele depois de algum tempo. Bom, irmão, tu me provou muitas coisas hoje, e lhe agradeço por isso, mas não posso te ajudar. Eu não decido tão levianamente as pessoas que eu flecho.”
“Irmão, por favor” e jogando-se aos pés do irmão desatou a chorar novamente. “Prove que o amor não leva a dor simplesmente.”
“Levanta-se, meu caro, levante-se. Eu não decido levianamente, no entanto você pode, quem sabe, brincar um pouco com o meu arco e algumas flechas enquanto eu tiro uma soneca. Você tem uma hora.”
Abrindo um sorriso o irmão do Cupido saiu dali convicto de que salvou pelo menos uma vida.
Ele flechou o garoto, que por sinal vive feliz da vida até hoje com a mesma mulher, e até hoje tentar convencer suas vítimas que há mais do que a morte depois de um amor desiludido, pois todo mundo pode ter mais de uma chance no amor.
E embora o Cupido tenha perdido o sabor pelo que faz a muito tempo, sabe que ainda o faz por pessoas como seu irmão, que mesmo nas situações ruins e baixas da vida acreditam que exista algo mais.

Diogo

Irreconhecível

Sou um vazio irreconhecível, ausente

De palavras e gestos.

Imensidão imensurável, acúmulo

Inacabado sobre ruínas e restos.

Eco constante do que não se diz,

Morte contínua de tudo aquilo que

Você não quis.

Sou um vazio escondido na próxima esquina,

Que anda de mãos dadas com o nada.

Lágrima fria, esquecida no armário ou

De baixo da escada.

Distância que não se percorre, esperança

Que sempre é a primeira que morre.

Estou sempre no mesmo, e no outro que

Fica logo aqui ao lado.

Sou aquele que sente falta, mesmo que você

Nunca tenha chegado.

Não te peço então nenhuma compreensão,

Pois continuo me matando enquanto você

Cala mais um não.

Nathan