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Poesias

Poema sentimental

Você deita ao meu lado e todo o quarto
é só teu, pois que até minhas paredes
aguardam sua chegada lembrando como é
lindo teu corpo deitado no breu.
E teu olhar trás sempre uma nova cor
para o dia, teus lábios são sempre as
páginas que guardam o nascimento de
uma nova poesia.

É quando lhe entrego então todas as
minhas horas que sem você são todas
elas perdidas, entrego-lhe da minha
vida todas as ruas e todas as avenidas.
E nas tuas curvas mornas e adormecidas
deixo meu amor todo entregue aos teus
cuidados, pois sem você não há mais
niguém que consiga me deixar apaixonado.

 

 

Nathan

Pedaços partidos de um instante adormecido

Apertar o botão não liga mais, e há
mais tristeza em meu olhar do que no
seu instante quebrado.
Sei lá, é que hoje acordei com uma
tristeza tipo García Lorca no peito
e só queria ver você sorrindo ao meu
lado.

As horas as vezes deixam restos de
melancolia pela casa vazia, e você
distante parece um naufrágio engolido
pelo mar.
Não sei palavras novas que possam te
deixar menos indecisa, mas penso muito
na nossa música tocando no fundo de
algum bar perdido na noite sem luar.

Em algum lugar aqui dentro de mim dói
uma lembrança esquecida na gaveta, mas
talvez seja apenas restos de um poema que
li por ai.
E nesse vagar eterno das minhas buscas e
incertezas, guardo sempre um lugar que é
só teu e que me faz acordar cedo para te
dar bom dia antes que eu veja a cidade desabar…

e nos escombros encontramos estrelas que os
deuses esqueceram de nos roubar.

 

Nathan

Progresso

O que separa nossas mãos é mais
do que apenas o suór e a despedida,
é um desejo enfiado a força sob a pele
atravéz da abertura de uma nova ferida.
E teus dedos irão assim secando perdidos
na próxima janela quebrada, e continuaremos
a viver esquecidos entre nomes que nunca
nos dizem nada.

Tuas palavras soam iguais as minhas
sob os pedaços soltos das calçadas,
nossos rostos são enfeites e propagam
frases que se entendem mesmo caladas.
Irás assim afastando meus olhos e matando
meus versos, pois te fizeram ter medo do
que você não entende e ignorar o que
existe do lado externo.

Não sei se meus beijos chegarão mais
até você depois que a conexão cair,
não saberei por onde teus passos se
perdem nem se eu também poderei ir.
Mas escrevo-te com os dedos em lágrimas
para que possas beber-me toda a vida, e
quem sabe na próxima cidade possamos ter
tudo o que o medo tirou de nossas vidas.

 

Nathan

Confissões de um comedor de livros

Meu pés são descalços e meu olhar
tem a tristeza de uma flor, não tenho
versos premiados nem retratos velhos
que encerrem um céu desbotado em
uma dor de amor.

Bebo da terra e das calçadas todo o
suór que ainda não quis secar, e no meu
quarto guardo estrelas embriagadas que
as vezes confundem as luzes com a espuma
do mar.

Mas tenho ainda um caderno cheio de
palavras que fui juntando logo depois de
acordar, e nas minhas linhas mal desenhadas
sempre acabo encontrando um novo olho
lunar.

Entrego então uma coleção de dores tão
antigas quanto a minha loucura e a imensidão,
sõ não me entrego por inteiro pois ainda tenho
medo do se esconde de mim na próxima curva
do meu coração.

 

 

Nathan

O último suspiro da rosa

O último suspiro da rosa foi
silencioso, de peito aberto
à madrugada recebia ela a
chegada da norte gélida.
A solidão com gosto de terra
deixou o ar brumoso, e no ramo
ao lado se compadeceu uma triste
camélia.

Frio e moscas fûnebres vieram
velar o corpo em pétalas, a lua
escondendo-se na próxima nuvem
deixava soltos os últimos versos.
O suspiro morreu na grama úmida e
nas formigas dispersas, o vermelho
caído na penumbra era a ausência de
um coração em restos.

O último suspiro da rosa foi calado
pelas palavras que chegavam bêbadas
da cidade, e nenhum jardim próximo
beberia dos seus espinhos o veneno
último da saudade.

 

Nathan

Tudo

Se os ventos fossem pedaços dos teu cabelos,
o sal do mar seria a ecura das tuas lágtimas.
E teus olhos engoliriam a vida como dois buracos
negros e solitários, e cada palavra tua criaria
o mar de luz dos dias.

E esses teus pedaços soltos por ai também poderiam
ser os meus, aqueles que esqueci já faz alguns anos,
Teu corpo poderia ser uma parte da minha gengiva, teu
suór me escorreria pelos lábios pois seria ainda a
minha saliva.

Pois vivo bem no meio desse todo disperso em que cada
parte é você e sou eu.
E nesse confudir eterno de nossas vidas, chego até a
morrer quando tu se afasta pois que é quando o sol se
se esconde para que o dia possa se perder.

Nathan

Aborto poético

O poema quer nascer sob a chuva,
insiste a colocar frases que cheguem
vivas até o outro lado da rua.
Sem cor e sem memória ele se encolhe,
o vento rouba suas vírgulas solitárias e
o entrega á noite já todo mole.

Versos inteiros escondendo-se nos
bares, pedindo doses de cachaça que
os tornem eternos longe dos lares.
A rima fumando cigarros e perdida no
banheiro, na mesa ao lado o ponto
final sem jeito pede o isqueiro.

Já aos pedaços o poema deita na calçada
e adormece, no ônibus lotado passam as
letras que cansaram-se de tanto estresse.
A chuva não cessa e a cidade inteira para
sob os postes, o poema é último a perceber
que sob lágrimas alheias também se morre.

O poema quis nascer mas a o tempo não
ajudava, até ele tem que entender que tudo
deve ter dia e hora marcada.

 

Nathan

Eterno retorno

Se volto ás palavras é por descuido,
é por medo de sair do distante.
Se meus dedos voltam a bater na inutilidade
é por não ter mais esperanças nem
abraços nem novos horizontes.

É por sedução do naufrágio eterno
em que beiram os dias que volto á escrita.
É por saber não ter os olhos ainda secos
que ainda tento versos e imagens que
caibam em uma nova poesia.

Talvez nada encontre de novo, nada que
não tenha já sufocado na própria impaciência.
Talvez mais palavras ignoradas pelas ruas e
é por isso que retornam as madrugadas secas
que me incitam à nova eterna insuficiência.

Se volto às palavras é por vazio, após
fechar os olhos e apagar o último cigarro.
Se volto às palavras é por algum beijo
escondido que na ausência ainda recobre as
molduras negras do meu retrato.

 

Nathan

Consequências de uma cerveja quente

Se os sonhos não me escutam,
o que cantarei na minha morte?

Se as palavras não dizem nada,
como saber qual a próxima esquina?

Se os homens mataram Deus,
como esperar que traduzam meus versos?

Se a poesia não servir para nada,
o que dizer ao choro de uma criança?

Se os cigarros se molharem,
como dormir até o meio dia?

Se você não existisse,
como inventariam o amor?

Se essas perguntas não tem resposta,
como lê-las até o final?

 

Nathan

Poema sincero

Não leve a sério esse poema,
ele não foi escrito no brilho
da inspiração nem na elegância
da pena.
Não leve à sério as palavras nem
as estrofes, são pedaços de uma
mente pertubada e esnobe.

Não o traduza para nenhuma
língua sequer, não leve para a
eternidade nem o entregue
para uma mulher.
Não procure nele emoção ou
identificação, isso se encontra
em qualquer parte da multidão.

Não lhe atribua premios nem
nenhuma espécie de honraria,
ele foi feito do nada e a ele deve
sua autoria.
Não perca tempo a lhe dar alguma
interpretação, ele é apenas o final
de mais uma escala de produção.

Não leve à sério esse poema nem
nenhum outro, todos são feitos
quando o autor fuma um cigarro e
se sente ocioso.
Não leve a sério a criatividade nem
o processo de criação, escrevi essas
linhas enquanto alimentava meu cão.

Por fim nem o leia se tiver algo melhor
a fazer, não lhe aplique sua inteligência
nem o tenha em mãos quando pensar
em ver o sol nascer.
Ele não é obra de gênio nem de nobre
intelectualidade, esqueça-o que ele não
serve para nada em nenhuma parte.

 

Nathan