Tem uma espada nos meus pés. A espada é a única coisa que se sobressai na escuridão que me cerca. Tem a lâmina longa e prateada, e o cabo curto, mas bem desenhado e trabalhado. Eu pego a espada.
Sinto-me zonzo, meio perdido. Como cheguei aqui?
Não é hora para perguntas. Ouço atrás de mim um grito e olho para trás, vendo um lobo enorme vindo em minha direção. Por sorte ele escorrega num bueiro e rola para trás de um carro. Aproveito o momento e me projeto para frente, correndo dali. Meus membros parecem mais lentos, meus movimentos parecem mais distorcidos. Deve ser o terno cinza, com a gravata vermelha que eu visto. Eu continuo a correr e ouço um estrondo atrás de mim. O lobo conseguiu se levantar e desconta sua raiva no carro. Do meu lado vejo uma porta e arromba ela com um chute.
Lá dentro uma escada de incêndio. Eu subo, com o máximo de rapidez que meu terno permite. Antes de fazer a curva na escada olho para trás e vejo um velho na porta, com o sangue escorrendo pela boca.
Não sei quanto tempo demoro para subir todo o prédio, mas o medo me domina em toda a subida. O ar vai faltando a cada andar que eu passo e meus movimentos vão ficando mais e mais lerdos. Mas finalmente vejo a porta que vai me levar para a saída, lá em cima, quando finalmente fico de frente para ela, parece que não posso me mexer.
Minhas pernas parecem concreto, meus pés chumbo. Estou nu e travado, justamente quando ia alcançar a saída. Meus braços só tremem de medo. Ouço atrás de mim o barulho de patas. Sei que o lobo está atrás de mim.
De algum modo consigo me mover e abro a porta. O vento frio que bate no meu corpo faz os meus mamilos ficarem rígidos. Vejo finalmente a ponte que vai me tirar dali, me levar para um lugar melhor. Bato a porta atrás de mim, tranco ela com a chave e saio correndo em direção a ponte.
Quando o velho escancara a porta eu já estou no meio do corredor. Sinto-me salvo, pois só preciso chegar ao final e eu tenho uma grande vantagem. Mas então as paredes parecem que se estreitaram e começo a ter dificuldades para passar. Já chegando no final, e passando de lado pelo corredor, as paredes me prendem e não consigo me mexer. O velho lobo se aproxima com cada vez mais velocidade e eu só consigo fechar meus olhos antes de sentir o encontro de sua mão na minha cabeça.
A dor é excruciante. Meus olhos latejam com a dor. A pequena soneca no ônibus me fez bater com a cabeça na janela.
Diogo

