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Chega de Tristeza, chegou o Carnaval.

O pivete desce da favela correndo, alegre. É carnaval. Acabou-se a desigualdade, o escárnio, o preconceito. È hora de cantar, dançar, chorar e sambar. Ele se arrumou como nunca antes, até se perfumou, veja só. Normalmente ele não faz nada de mais, só estuda de manhã e de tarde vende bala no sinal para sobreviver, coisa pouca. Vive numa favela daquelas brabas, de filme mesmo, bem violenta, mas mesmo assim não se deixa influenciar. Não se mete com os caras logo eles não se metem com ele. Sempre viram a cara para ele na rua, mas hoje, hoje não, é carnaval, vai pular e sambar e se animar nos blocos do centro, da zona sul, zona norte, de qualquer zona.

De frente para a praia em Copacabana acorda a menina. Com um sorriso no rosto do descanso merecido, afinal andara estudando muito, finalmente chegou o carnaval. Já acorda indo buscar o activia na geladeira, com o telefone na orelha ligando para as amigas. Os pais olham tudo com carinho, pois também vão sair e se divertir, tomar aquela cerveja gelada enquanto acompanham os blocos que passam fazendo samba na rua.

O carnaval é curioso desse jeito. Une e junta tudo o que vive separado, prova por A+B que o heterogêneo também tem sua homogeneidade.

O batuque do tambor, do tamborim, do surdo, do bumbo, tudo junto, fazendo vibrar o chão das ruas antigas e velhas do centro do Rio, mas que sentem o sopro de vida quando chega essa época do ano. 1 milhão de pessoas na rua. Não, mais, muito mais. È um vírus que se alastra, sem cura. Gripe suína é fichinha perto do carnaval, vai por mim.

A cada segundo que precede a pancada que cria o ritmo, a cada passada sobre passada criando assim o jeito de sambar, a cada sorriso no rosto que se alarga a cada canção cantada e gritada, o mundo parece parar, a natureza parece se agitar de felicidade. Deus dobra seus joelhos e diz o muito obrigado sonoro enquanto volta a sorrir de alegria.

O carnaval é a prova de que num país onde a tristeza domina a maior parte do tempo, onde tudo e todos conspiram para a desgraça, depois de anos de exploração, ditadura e repressão, ainda assim tudo pode dar certo, e a cidade pode cantar.

O samba que toca na praia em Ipanema agita as pessoas, que sentem talvez pela primeira vez que ali estão vivos, que ali nada importa.

Nada no carnaval é coincidência, tudo tem um motivo. A quarta-feira de cinzas não tem esse nome a toa, por exemplo. O carnaval morre sim, mas como tudo que é bom sempre volta, ele renasce das cinzas como uma fênix verde e amarela, que não tem seu canto diferente do samba.

O menino da favela dança do lado da menina da zona sul. Seguem atrás do estandarte enquanto cantam com contentamento que a vida é bonita, é bonita e é bonita, curtindo a alegria fugaz que se chama Carnaval.

Diogo

Cálice

Na mesa de bar num sábado com Sol as 16 horas da tarde, clima agradável, sudoeste batendo refrescante, dois homens de camiseta conversam e bebem um casco de cerveja bem gelado.

O papo, que começou no futebol, chegou agora na música. Enquanto os dois discutem como todas as músicas do Jorge Vercilo podem ser ruins, um grupo de homens bem vestidos caminha pela rua após virar a esquina no fundo da rua. Surpreendidos com aquela imagem estranha para aquele dia, os dois homens param imediatamente de conversar e vão segurando conforme os homens vão se aproximando pela rua.

Porém, ao chegarem perto do bar, os bem vestidos olham de cima os dois homens sentados e em unissono mandam um:

-Cala a boca.

Em choque após a ordem os dois levantam da mesa e vão tirar satisfações com os homens de gravata. Assim que começam a falar:

-Que porra é essa, maluco?

Um dos bem vestidos saca de sua pasta um papel. Uma intimação para os dois homens comparecerem ao tribunal tal, vara tal, no dia tal e hora tal. Entrando em choque novamente, quase causando um aneurisma nos homens de tão absurda a situação, os bens vestidos assistem aquele momento com calma e passividade e então falam novamente:

-Cala a boca.

Os dois homens sentam, quase brancos e cada um vira o copo de cerveja. Após respirar fundo depois de tomar o pileque, um dos camisetados levanta novamente e, com calma desta vez, pergunta:

-Senhores, mas o que está acontecendo? Por que eu estou sendo processado? Me expliquem senhores.

Os bem vestidos se entreolham e o maior deles tira um par de algemas do bolso, algema o camisetado falando:

-Teje preso.

E colando a sua boca com fita crepe evita que este tome qualquer decisão. Seu amigo, sentado na cadeira já se encontra no chão, babando e tendo convulsões, gritando a plenos pulmões:

-Mas que porra é essa, o que está acontecendo?

Chamando a atenção das pessoas dentros das casas, que olham para a rua, fofoqueiras, tentando descobrir o motivo do alvoroço.

Os bem vestidos, percebendo a situação que acontecia, algemaram e calaram a boca do outro homem, tacaram os dois num carro e sairam dali. Nem todos, que fique bem claro. Alguns dos engravatados ficaram por ali, sorrindo e falando para cada um como eram bons e faziam tudo por eles.

Uma mulher, após receber um quilo de arroz de um homem de gravata volta para dentro de casa e comenta com a filha:

-Minha flor, você não acredita quem tava ali na rua. Ai que emoção. Pensei que eles só apareciam na televisão, esses tais de…


-Ué? Oh Ribamar, cadê o resto do conto?

-Ih seu João, uns homens engravatados passaram aí e levaram.

-Porra, que que eu faço agora?

-Faz como antigamente o senhor fazia, Seu João, publica uma receita aí.

-Ah, beleza então.

Bolo Brasil

Tire o dinheiro da população

Não invista nada em educação

Dê dinheiro público para quem te dá mais garrafas de champagne no fim do ano

Misture num forno oligárquico

Deixe dourar nas ondas de violência

Enfeite tudo isso com Olimpiadas, Futebol, Copa, Novela e Big Brother

E sirva no cú da população.

Diogo