Há muito, muito tempo, dois seres foram criados. A um foi dado o trabalho de fazer as pessoas se apaixonarem, e para isso ele utilizaria-se de um arco e algumas flechas que, imediatamente quando perfurassem o coração do alvo, o fariam se apaixonar pela sua alma gêmea. Esse serzinho recebeu o nome de Cupido.
Essa lenda todo mundo conhece, e todo mundo fica feliz de contar. No entanto, pouca gente sabe que junto com ele nasceu o seu irmão. Para este foi dada uma foice e durante toda a eternidade ele teve o trabalho de cortar a ligação entre corpo e alma dos apaixonados que resolviam suicidar-se por amor.
Durante anos os dois cumpriram seu trabalho com exemplar disciplina e perfeição. O Cupido apaixonando Bogies e Bacalls, enquanto seu irmão era o responsável por jovens, e velhos, Werthers.
Cada dia, mês, século que se passava o irmão do Cupido ficava mais e mais cansado, triste, desiludido. Não entendia como um sentimento tão puro, simples e lindo como o que seu irmão fermentava nas pessoas podia causar tanta destruição, já que ele trabalhava muito mais que o Cupido.
Um dia, indo cumprir mais uma vez seu dever, decidiu intervir.
Enquanto o jovem botava a bala no pente do revólver ele falou:
“Pare, por favor. Me ouça um minuto. Por que você vai fazer isso, garoto? Você parece ter uns 20 anos no máximo?”
O garoto olhou calmamente no fundo dos olhos da entidade e falou:
“Faço isso por amor. Eu a amo, já tentei de tudo, tudo mesmo, mas ela não me dá bola, ela não me ama. Ela está feliz com o outro e eu aqui, um simples garoto que joga videogame e gosta de Star Wars.”
“Há anos eu faço isso garoto, eu tiro o laço da vida de pessoas como você, que se desiludiram com a paixão, e posso te dizer que isso não te trará nada de bom.”
“Trará a liberdade da vida cruel, que me oprime mostrando que os outros podem amar e ser felizes, menos eu”
“Não, menino, não. Embora meu trabalho seja o de te tirar a vida, eu não quero fazer isso novamente. Não em nome do amor. Já tirei a vida de pessoas em situações piores do que a sua, e mesmo assim não resolveu nada. Jovens românticos como você, pais de família, homenes e mulheres solitários. Tive que levar todos para ospiores lugares possíveis, tudo em nome do amor. Isso não é amor, amor não mata. Por favor, para com isso”
E pela primeira vez na história do mundo, um pequeno Deus desatou-se a chorar na frente de um humano. Chocado com a situação o garoto botou a arma em cima da mesa, e foi auxiliar o anjo em seu pranto.
Após algum tempo reconfortando-o, o garoto olhou nos olhos dele e falou:
“Olha, você me convenceu da besteira que eu ia fazer. Hoje, pelo menos, eu não me matarei. Daqui a um ano, se eu não mudar de idéia, você me encontrará e aí sim eu terminarei o que comecei hoje. De acordo?”
“Sim”
E o irmão do Cupido chegou em casa e correu para falar com seu irmão. Ao encontrá-lo sentado embaixo de uma árvore, polindo seu arco, sentou-se a seus pés e pediu um favor:
“Irmão, há séculos vivemos e trabalhamos juntos. Muitos dos que você acertou foram minhas vítimas no futuro, mas chegou a hora do inverso ocorrer. Uma vítima minha decidiu ter uma segunda chance. Mas se daqui a um ano ele não se apaixonar ele vai se matar novamente. Portanto lhe peço, mais, lhe suplico, que me ajude nisso.”
O Cupido levantou os olhos calmamente do arco, olhou no fundo dos olhos do irmão e o respondeu com sua voz grossa e forte para alguém do seu tamanho:
“Depois de todos esses anos fazendo o trabalho mais difícil de nós dois, você ainda assim acreditou até o fim no amor. E eu, o responsável por fazer os casais se apaixonarem e se amarem, desisti dele depois de algum tempo. Bom, irmão, tu me provou muitas coisas hoje, e lhe agradeço por isso, mas não posso te ajudar. Eu não decido tão levianamente as pessoas que eu flecho.”
“Irmão, por favor” e jogando-se aos pés do irmão desatou a chorar novamente. “Prove que o amor não leva a dor simplesmente.”
“Levanta-se, meu caro, levante-se. Eu não decido levianamente, no entanto você pode, quem sabe, brincar um pouco com o meu arco e algumas flechas enquanto eu tiro uma soneca. Você tem uma hora.”
Abrindo um sorriso o irmão do Cupido saiu dali convicto de que salvou pelo menos uma vida.
Ele flechou o garoto, que por sinal vive feliz da vida até hoje com a mesma mulher, e até hoje tentar convencer suas vítimas que há mais do que a morte depois de um amor desiludido, pois todo mundo pode ter mais de uma chance no amor.
E embora o Cupido tenha perdido o sabor pelo que faz a muito tempo, sabe que ainda o faz por pessoas como seu irmão, que mesmo nas situações ruins e baixas da vida acreditam que exista algo mais.
Diogo

