Um homem sentado numa cama. Deve ter no máximo uns 20 anos. A barba rala na cara. Olha para a janela do quarto como se só conseguisse pensar com a ajuda das estrelas. O céu está nublado.
Na mão uma foto, a recordação de um passado que, pela idade do sujeito, não é tão distante. A cada cinco minutos, cravos, ele olha para a foto.
- Sinto falta disso tudo.
Fala sozinho, olhando para a foto, para as estrelas.
- Eramos tão amigos, tão promissores. Os nossos sonhos, nossos ideais, nossas vontades de mudar o mundo.
Levanta e começa a andar de um lado para o outro, olhando a foto, esquecendo as estrelas. Lembra agora de tempos distantes, onde sentava na roda com as pessoas da foto, presumivelmente, e eles faziam planos, traçavam metas, escreviam em folhas de papel e até gravavam em áudio, com um velho gravador, tudo que iriam fazer.
- Eu lembro de como íamos lutar sempre as batalhas mais difíceis, destronar os reis ditadores, acabar com a solidão. Tínhamos o caminho das coisas nas mãos.
Lágrimas de nostalgia escorrem pela maça do rosto. O misto de sorriso e tristeza, com as lágrimas pingando pelos fios tenros da barba rala formam uma cena, no mínimo, esteticamente poética. A emoção é tanta que deixa de andar e larga a foto ao chão.
Ao ouvir o choro, os enfermeiros entram rapidamente pela porta do quarto para ajudar o homem. Levantam ele, que caira no chão, e o deitam na cama. Um tira uma seringa do bolso e aplica. O homem se acalma e após algum tempo de suspiros e baforidos, a respiração vai ficando lenta e ele vai adormecendo.
Sonha com os amigos, a família, ou quem quer que sejam as pessoas da foto. Os abraça, os sente próximos.
- Sinto falta de vocês, onde vocês estão?
Uma das formas disformes, como todas as pessoas são nos sonhos, diz:
- Estamos sempre com você, não nos vê?
As rugas e a cabeça calva ganham uma nova textura quando o homem acorda com o Sol batendo em sua cara. Olha-se no espelho. Não tem mais 20 anos, deve ter uns 90. Sempre acontecia daquele jeito, assim que lembrava-se do seu passado, o homem parecia rejuvenescer. Nem se incomodava mais com o fato de ter de ver-se velho novamente, no fim da experiência. Os enfermeiros também pareciam não ligar. Então estava tudo bem naquela manhã.
O velho tinha lembrado dos amigos, isso era bom. Vestiu-se, então, com as roupas brancas e saiu pela porta, em busca do café da manhã. No chão ainda jaz a foto, que revela o segredo final do homem. Não é uma foto, e sim uma folha de papel em branco, vazia.
E enquanto, como narrador, fico na dúvida eterna se o homem inventava os amigos ou simplesmente lembrava-se deles de tempos bem passados e remotos, o velho come mamão e ouve no rádio a missa e termina o pai nosso com seu amén.
Diogo

