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Everest

O monte branco era enorme, verticalmente impossível de ser escalado. A superfície era tão lisa que pode-se deslizar, não há espaços para se apoiar. Como se fosse um Everest onde não pudesse se segurar ou agarrar.

No entanto ela sobe, pé ante pé, com toda a força e perseverança que seu frágil corpo permite. A subida é ainda mais difícil por causa de seu peso. Está grávida, ao que parece num estágio avançado, como se já pudesse botar seus descendentes no mundo.

O frio que vem com o vento a faz parar. Sabe que vem de cima, é resistente a ele, mas precisa subir, é da sua natureza esse seu querer. Para piorar a sua situação a superfície treme, como se um ser gigante, um Deus, batesse as mãos na parede lisa e tudo balançasse. Prudente como só ela, segura-se no seu fio, como uma corda que sustenta, como uma teia que não arrebenta e a aguenta.

As diversidades passam e ela sente que agora é chegada a hora. Após algum tempo de esforço hercúleo chega no topo, ao fim almejado. Olha com seus olhos toda a extensão do mundo abaixo dela. Vê as pessoas todas, pequenos pontos lá embaixo.

Dono das enormes mãos que criaram o terremoto adverso a subida, a criança observou toda a escalada pela qual a aranha passou. E com um sorriso que só as crianças conseguem fazer, começou a cantar:

- A dona aranha subiu pela parede…

Diogo

Retrato

Eu me lembro da cara do meu pai enquanto sentia o sangue e o suor escorrerem pelo meu rosto e enquanto ele falava, eu tentava me manter acordado sem sucumbir a vontade incontrolável de desmaiar.

-Cara, eu te ensinei desde o começo, que não importa o caminho que tu ia escolher, mas sim o que interessava é viver.

Sábias palavras, pena que não dei valor a elas quando pude.

Não sei como briguei e para falar a verdade nem sei o porquê de ter brigado. Só sei que em certo ponto foi inevitável o que aconteceu, como o grão de areia que cai na ampulheta significando que aquele segundo já era perdido. O soco varado me acertou em cheio no maxilar, me fez cair no chão de cimento da rua. Naquele pequeno e fugaz segundo pude sentir o cheiro da sujeira, da merda de cavalo, da poluição e da tristeza e declínio dessa cidade. O sangue que escorre da minha gengiva tem o gosto amargo da porrada bem levada. Avalio minha situação, sei que o cara é maior, mas os anos de capoeira deveriam valer de algo e levantei as pernas dando um chute na boca do cara.

O resto é escuridão com tons vermelhos de ira. Não me lembro ao certo o que aconteceu só sei que no final matei o homem.

Enquanto eu estava na calçada, cansado da briga e quase sem forças vi meu pai chegando, tenso e apreensivo. Ele olhou para mim, falou comigo e sentou do meu lado na calçada. Não entendi, como não entendo, até hoje o gesto de bondade que veio a seguir. Ele botou a mão pelos meus ombros, abriu um sorriso e ainda olhando pela calçada perguntou:

-Você lembra quando a gente saia nos sábados de manhã?

E eu respondi que sim, como poderia me esquecer. A maioria das lembranças com o meu pai são desses sábados de manhã, onde íamos a praça XV na feira de coisas velhas e ficávamos olhando as câmeras antigas e as fotografias de gente que há muito já se fora. Ou então as visitas aos sebos ali perto da Carioca, onde comprávamos desde Proust até João Antônio. Ou quando dávamos uma volta na nas ruas aqui perto de casa e comprávamos uma revista Mad na banca de jornal, íamos para casa e ficávamos rindo sozinhos enquanto minha mãe ficava maluca tentando entender o motivo daquela balburdia toda.

Só tinha boas lembranças e naquele momento, como agora, as lágrimas escorreram e escorrem. Chorei de ter jogado tudo aquilo fora numa briga sem motivo, com socos e chutes que nunca pensei em dar e nem sabia ser capaz.

Ficamos abraçados ali algum tempo, eu chorando e ele me abraçando. O policial então veio e me levantou e pôs na parte de trás do Gol bolinha. Do lado de fora via meu pai iluminado pelas luzes vermelha e azul da sirene. Vi minha vida escapar, tudo fugiu sobre meus pés. Ali, o grão de areia na ampulheta caia e mais um segundo passava.

Diogo

Eu vi.

E no ônibus está todo mundo sentado. Não está lotado, não tem gente em pé, ainda tem alguns lugares, mas são 8 da manhã, então não tem como ficar sentado sozinho na janela. A cara de tédio, de tristeza e de saco cheio está em todas as faces. Do motorista que acordou às 4 da manhã para ficar dirigindo a manhã inteira, ao cobrador que tem que lidar com a falta de objetividade dos passageiros que não sabem dar o dinheiro certo ou comprar um cartão eletrônico pra facilitar seu trabalho, passando pelos mais de 20 passageiros contando estudantes entediados e cansados de estudar até tarde, as diaristas que já se cansam antes mesmo de chegar no local que devem limpar, as recepcionistas ou secretárias que vão olhar e falar com milhares de pessoas diferentes e cada vez mais incovenientes, os operadores de tele-marketing vendedores de seguro que invariavelmente vão perguntar”Senhor e o combustível do seu veículo?”  e o cliente responderá “O tanque tá cheio, sim”. No fundo todos os fazem por necessidade, precisam do dinheiro e no fundo se conformam por estarem fazendo parte da sociedade, ajudando o mundo a crescer.

Com uma bolsa ecológica uma mulher faz sinal no ponto. Sobe com a mesma cara dos outros, uma mistura de fatiga e desprezo pela vida. Encaminha-se para a roleta com o cartão na mão. Quase o ônibus indo embora, já fechando a porta, um homem bate na lateral do veículo. Tátátá. O motorista abre a porta e o homem sobe, de camisa pólo verde e óculos, com o cabelo recém molhado. Assim que entra no ônibus corre para a janela, olha para o alto, para sua amada do lado de fora que o espera na janela do segundo andar. O homem manda um beijo para ela e abre um sorriso. Ao menos alguém nesse ônibus vai feliz.

Diogo