Eu me lembro da cara do meu pai enquanto sentia o sangue e o suor escorrerem pelo meu rosto e enquanto ele falava, eu tentava me manter acordado sem sucumbir a vontade incontrolável de desmaiar.
-Cara, eu te ensinei desde o começo, que não importa o caminho que tu ia escolher, mas sim o que interessava é viver.
Sábias palavras, pena que não dei valor a elas quando pude.
Não sei como briguei e para falar a verdade nem sei o porquê de ter brigado. Só sei que em certo ponto foi inevitável o que aconteceu, como o grão de areia que cai na ampulheta significando que aquele segundo já era perdido. O soco varado me acertou em cheio no maxilar, me fez cair no chão de cimento da rua. Naquele pequeno e fugaz segundo pude sentir o cheiro da sujeira, da merda de cavalo, da poluição e da tristeza e declínio dessa cidade. O sangue que escorre da minha gengiva tem o gosto amargo da porrada bem levada. Avalio minha situação, sei que o cara é maior, mas os anos de capoeira deveriam valer de algo e levantei as pernas dando um chute na boca do cara.
O resto é escuridão com tons vermelhos de ira. Não me lembro ao certo o que aconteceu só sei que no final matei o homem.
Enquanto eu estava na calçada, cansado da briga e quase sem forças vi meu pai chegando, tenso e apreensivo. Ele olhou para mim, falou comigo e sentou do meu lado na calçada. Não entendi, como não entendo, até hoje o gesto de bondade que veio a seguir. Ele botou a mão pelos meus ombros, abriu um sorriso e ainda olhando pela calçada perguntou:
-Você lembra quando a gente saia nos sábados de manhã?
E eu respondi que sim, como poderia me esquecer. A maioria das lembranças com o meu pai são desses sábados de manhã, onde íamos a praça XV na feira de coisas velhas e ficávamos olhando as câmeras antigas e as fotografias de gente que há muito já se fora. Ou então as visitas aos sebos ali perto da Carioca, onde comprávamos desde Proust até João Antônio. Ou quando dávamos uma volta na nas ruas aqui perto de casa e comprávamos uma revista Mad na banca de jornal, íamos para casa e ficávamos rindo sozinhos enquanto minha mãe ficava maluca tentando entender o motivo daquela balburdia toda.
Só tinha boas lembranças e naquele momento, como agora, as lágrimas escorreram e escorrem. Chorei de ter jogado tudo aquilo fora numa briga sem motivo, com socos e chutes que nunca pensei em dar e nem sabia ser capaz.
Ficamos abraçados ali algum tempo, eu chorando e ele me abraçando. O policial então veio e me levantou e pôs na parte de trás do Gol bolinha. Do lado de fora via meu pai iluminado pelas luzes vermelha e azul da sirene. Vi minha vida escapar, tudo fugiu sobre meus pés. Ali, o grão de areia na ampulheta caia e mais um segundo passava.
Diogo