Hoje é dia de alegria, dia de criança, ô se é. Olha ali o menino correndo, com as chinelas batendo no chão fazendo tec, tec, tec, tá correndo muito, olha o carro quando atravessar. Ele viu de longe a moça chamando e foi lá correndo, menino sagaz. Pegou o primeiro saquinho do dia. Tem paçoca, maria mole, amendoim, pé de moleque, teta de nega, bala e pirulito. Saquinho gordo, ele sorri e fica feliz. Continua andando por ali e 7 minutos cravados depois vê outra moça dando doce. Corre, corre e corre, alcança a tia e pede o saquinho. Esse é tão moderno que tem brinquedinho, guarana e barrinha de cereal.
Passa o dia inteiro assim, com o corpo na rua buscando alegria num saquinho dado por um desconhecido. De vez emquando umas moças dão o saquinho rindo, olhando estranho. Algumas rezam do seu lado e tudo, mas ele não fica com medo, não se importa, contanto que receba o saquinho. Não sente sede, fome, nada, só sente a vontade de correr atrás dos saquinhos, quer muito pegar doce, mas muito mesmo. Quem não gosta?
Já no fim da tarde, cansado do dia corrido, olha as pessoas no onibus. Devem estar voltando do trabalho, já são umas 7 horas da noite. Mas que ruim é ser adulto, poxa, a única coisa que se pega no dia de hoje é onibus cheio. Sem docinho, sem nada, poxa que triste. Não quero crescer, ele pensa, quero ser criança para sempre pra poder pegar doce.
Já de noitinha, deitado na cama, de banho tomado e já beijado pela mãe para dormir ele relaxa. Que dia gostoso, que dia alegre. Ele não costuma fazer isso todo dia não, mas hoje é especial, de alguma forma. Fecha os olhos e agradece os dois homens, iguaizinhos, envoltos por crianças, que sorriem para ele. Valeu seu Cosme, valeu seu Damião.
Diogo

