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27 de setembro

Hoje é dia de alegria, dia de criança, ô se é. Olha ali o menino correndo, com as chinelas batendo no chão fazendo tec, tec, tec, tá correndo muito, olha o carro quando atravessar. Ele viu de longe a moça chamando e foi lá correndo,  menino sagaz. Pegou o primeiro saquinho do dia. Tem paçoca, maria mole, amendoim, pé de moleque, teta de nega, bala e pirulito. Saquinho gordo, ele sorri e fica feliz. Continua andando por ali e 7 minutos cravados depois vê outra moça dando doce. Corre, corre e corre, alcança a tia e pede o saquinho. Esse é tão moderno que tem brinquedinho, guarana e barrinha de cereal.

Passa o dia inteiro assim, com o corpo na rua buscando alegria num saquinho dado por um desconhecido. De vez emquando umas moças dão o saquinho rindo, olhando estranho. Algumas rezam do seu lado e tudo, mas ele não fica com medo, não se importa, contanto que receba o saquinho. Não sente sede, fome, nada, só sente a vontade de correr atrás dos saquinhos, quer muito pegar doce, mas muito mesmo. Quem não gosta?

Já no fim da tarde, cansado do dia corrido, olha as pessoas no onibus. Devem estar voltando do trabalho, já são umas 7 horas da noite. Mas que ruim é ser adulto, poxa, a única coisa que se pega no dia de hoje é onibus cheio. Sem docinho, sem nada, poxa que triste. Não quero crescer, ele pensa, quero ser criança para sempre pra poder pegar doce.

Já de noitinha, deitado na cama, de banho tomado e já beijado pela mãe para dormir ele relaxa. Que dia gostoso, que dia alegre. Ele não costuma fazer isso todo dia não, mas hoje é especial, de alguma forma. Fecha os olhos e agradece os dois homens, iguaizinhos, envoltos por crianças, que sorriem para ele. Valeu seu Cosme, valeu seu Damião.

Diogo

Desde quando você virou gente grande?

Levanto tarde, o sol das duas horas sobre o meu corpo.

Dor de cabeça. Ressaca da noite anterior.

Ela esta sentada no chão do lado da minha cama. Tem alguma coisa brilhante nas mãos.

Pensei que você não fosse acordar nunca. Olha, meu chaveiro novo.

É bonito, respondo sem olhar.

Segura ele, se você apertar aqui ele pisca e treme.

Depois eu vejo com calma, to cansado.

Ela se levanta e mexe no meu cabelo.

Você não vai cortar o cabelo? Ele é maior que o meu.

Um dia eu corto.

Ela tira uma escova do bolso.

Deixa eu pentear ele pra você, ta todo bagunçado. Eu vou dormir aqui hoje, minha mãe vai sair eu vou ficar aqui, sabia?

É eu sei. Eu vou dormir mais um pouco depois a gente conversa direito.

Sua mãe disse que eu podia entrar no seu quarto porque já estava na hora de você acordar. Faz aquela mágica do isqueiro pra eu ver? E depois brinca comigo na rede, ta bom?

Tiro o lençol de cima das pernas. Viro a cara para a parede.

Agora não dá para brincar, mais tarde talvez. Vou dormir.

Ela se afasta da cama.

Desde quando você virou gente grande?

Não entendi, eu não sou gente grande.

É sim. Diz que não tem tempo pra brincar e ta com cara de irritado, isso é coisa de gente grande.

Olho para ela. O chaveiro parou de piscar. Reparo na sua perna rabiscada de caneta.

O que aconteceu com a sua perna?

Tentei fazer uma tatuagem igual a sua, ela diz sorrindo.

Sorrio também.

Ela se aproxima da cama de novo. Tira um papel amassado do bolso.

Fiz um desenho pra você.

Ela me entrega. Na parte de fora esta escrito “para o meu primo”, dentro um coração com o meu nome.

Sorrio de novo.

Viu, outro sorriso. Já ta deixando de ser gente grande.

Me levanto.

Vou botar uma roupa e depois a gente vai ali embaixo comprar um sorvete.

Eu ainda não almocei, sua mãe vai brigar.

Então a gente não conta pra ela.

Ela segura minhas mãos e diz que prefere sorvete de chocolate.

Nathan