Um homem dorme em baixo da marquise de um prédio, na Presidente Vargas. Quem passa perto sente o cheio de merda, sujeira e cachaça barata entrar pelas narinas. Ninguém olha ou repara no homem e mesmo quando ele passa despercebido as pessoas o olham com nojo e asco. Alguns poucos acham pena da situação e dizem que a culpa é do governo que não dá oportunidades. Malditos hipócritas comunistas. Aliás redundância chamar os comunistas de hipócritas. Todos os são. Falam de igualdade, mas compram relógios e usam roupas de marca, tem carros do ano e não fazem nada pelos outros, apenas falam. O homem que dorme na rua não se alimenta de palavras, se alimenta de comida.
Pra falar a verdade ele nem se importa com os outros. Há tempos vive na rua, já se considera parte dela. Cada pedaço de concreto, de asfalto, até uma pequena pedra portuguesa fazem parte dele. Ele e a rua são um só, por isso não se importa com a sujeira, já que seu mundo é todo sujo.
O barulho dos ônibus e pessoas chegando para trabalhar o acordam. Ele levanta e escarra no chão, fazendo uma moça que passava ali perto sair de perto com nojo. Foda-se, ele pensa, e começa a caminhar e a pedir dinheiro para comer. Três horas depois conseguiu 4 reais e usa todo o dinheiro para comprar uma garrafa de Velho Barreiro. Ele não era alcoólatra antes de morar na rua, mas viver nesse estado o fez ficar desse jeito. Senta na frente da Candelária e toma tudo da garrafa em menos de uma hora. Nesse interim nenhum dos cristãos que entram na igreja para rezar dão um dinheiro ou um prato de comida para ele. Apenas entram com seus desejos egoistas e os pedem na beira do altar. Depois saem dali e voltam a fazer as mesmas merdas de sempre. Cristãos apenas ali dentro, do lado de fora dá muito trabalho. O mendigo na escada não acredita em nada daquilo. Acredita na rua, apenas, e em todos que moram nela. E sim, ele tem noção que se mora muito mais gente na rua do que as pessoas podem ver. As vezes, a noite, vê os malandros. Só ele os enxerga na madrugada fria. Conversa com eles, quando eles estão afim. São os únicos contatos que tem na sua vida. Ninguem mais fala com ele, ninguem o ouve nem ninguem pergunta.
Quando começou a viver ali, ele queria morrer, mas não teve forças para isso. No primeiro mês não aguentava mais o próprio cheiro. Agora, depois de muitos anos, mais do que os dedos da mão podem contar, mais do que a memória pode se lembrar, ele não se importa mais com isso. Acha fútil.
O unico motivo util da sua vida é sobreviver. O resto não importa, não há porque.
A noite uma kombi passa e lhe entrega uma quentinha de comida. Ele agradece de coração ao homem que lhe dá a comida. Dá proxima vez que falar com os malandros vai pedir pra que eles ajudem o cara.
Depois de comer continua andando, e andando. Desce toda a Rio Branco. Hoje ele decidiu dormir ali, na Cinelândia, em frente ao Odeon. Olhar para aquelas portas lhe trás lembranças boas, da sua infância a muito passada. Enquanto fica ali a recordar-se dos tempos de criança, por coincidencia, uma garotinha de no máximo uns 6 anos chora. Pede a mãe algo, que esta se recusa a fazer terminantemente.
O homem olha aquilo e no seu intimo se desespera. Para ele todos deveriam ter as vontades satisfeitas, principalmente as crianças. Foda-se que elas cresceriam mimadas. Melhor mimadas do que viverem numa situação ruim. De ruim ja basta ele.
E ao pensar em si mesmo uma lágrima escorre. Todas as noites o homem chora, pois mesmo ele tendo se acostumado, mesmo ele tendo sobrevivido esse tempo todo, ele ainda continua sendo uma pessoa. Nesse momento ele percebe o quanto fede, o quanto está bêbado, o quão baixo e degradante é o nível que ele chegou.
Depois de chorar por alguns minutos, ele volta a ter o controle sobre a situação. Fica durante um tempo olhando a esquina pra ver se algum malandro aparece, mas como não vê ninguém, resolve dormir. Amanhã acordará do mesmo jeito, com as pessoas chegando para trabalhar e os ônibus lotando as ruas do Centro. Mas pelo menos ele tem noção do que acontece, assume que está nadando em um grande rio de merda, é realista, diferente dos outros.
O corredor é longo, iluminado por lâmpadas florescentes, o que lhe confere um aspecto muito branco. O mendigo não sabe se esse corredor tem comeo ou fim. Há muitos anos sonha com ele, no começo ele corria para chegar logo ao final, mas agora ele apenas anda por ele enquanto aproveita essa esse lugar inóspito e que transmite muita calma. De repente algo o puxa de volta para a realidade, dois tapas no rosto e uma voz que grita no seu ouvido, “acorda, porra, acorda”. O seu corpo todo treme enquanto ele volta a si. Passado o susto inicial, que nos acomete todas as vezes que acordamos de súbito, ele começa a tentar entender o que está acontecendo. Repara no malandro em pé ao seu lado, todo vestido de roupa de seda branca com um lenço vermelho amarrado ao pescoço. “Levanta que não é hora de dormir, é hora de fugir, vamo, vamo”. O mendigo acata as ordens e levanta rapidamente do chão. Antes de começar a importunar o malandro com as perguntas de praxe que qualquer um faria na situação, este se antecipa e fala tudo que o mendigo deve ouvir. “Tá vendo aqueles garotos vindo ali? então, se você ficar aqui com o cú pro alto, eles vão te pegar e te comer, vão te arrombar porra. Vem comigo que eu vou te proteger”. O sereno cai sobre eles enquanto percorrem as ruas estreitas e sujas do centro da cidade, o barulho das passadas ecoa na noite escura. No meio da rua do passeio o malandro para, tira um cigarro do bolso e o acende com calma e tranquilidade. O mendigo repara pela primeira vez naquele malandro. Não o conhecia, nunca tinha cruzado com ele antes. Apesar de usar a roupa e chapéu brancos e a gravata vermelha, como todos os outros, ele é diferente. Mais negro e forte que os outros, uma luz estranha parece sair do corpo dele. Porém o que mais intriga o mendigo são os olhos do santo da rua. Totalmente vermelhos, e de um vermelho escuro, esses olhos transmitem uma sabedoria e uma força estrondosas. O malandro é divino a sua própria maneira, possuidor da força de mil homens e mestre nas artes da rua.
Percebendo os olhares intrigados do mendigo, o malandro finalmente para de fumar, jogando o cigarro no chão e pisando-o de uma maneira que só ele pode fazer. Pergunta então. “Sabe, eu raramente apareço na rua, como você já percebeu. Aposto que tu nunca me viu por aqui, tô certo?”. “Tá sim, eu já encontrei muitos malandros, mas nunca vi você não.”. “Eu raramente apareço pras pessoas, esse tempo já passou pra mim, mas mesmo assim eu ainda tenho que me meter em alguns assuntos, certas vezes. Quando a coisa geralmente aperta, quando é importante pra caralho, eu tenho que trabalhar.”. O malandro tira o chapéu da cabeça, abaixa os olhos e fica fitando-o por alguns minutos. Depois levanta os olhos rubros, olha no fundo dos olhos castanhos do mendigo e recomeça a falar. “Tu vai andar comigo essa noite. Agora vamo acabar com a picuinha e vem comigo que eu quero beber um rabo de galo.”
Diogo

