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Manifesto do Partido Xilofonista

Acorda de manhã, feliz da vida, mais um dia de faculdade. Levanta, boceja, espreguiça, põe os chinelos, coça a cabeça e abre a porta do quarto. Tapa na cara.

-Vagabundo de merda, vai trabalhar filho da puta.

Insatisfação, mais um trauma na cabeça do garoto. Todo dia a mesma coisa nos últimos 365 dias. Todo dia ele é vagabundo, é um merda, um filho da puta. Não entende daonde vem o ódio de sua própria família contra ele. Todos o odeiam, o recriminam, reclamam dele, e ele nem sabe o porquê.

Sente-se um estranho ali, um peso morto, um vulto.

-Vai se foder, velha escrota. To indo embora.

Pela primeira vez na vida responde a insatisfação dos outros. A mãe em choque tenta entender o que acontece ali, ele vira, fecha a porta do quarto, arruma a mochila, pega suas economias e sai. A mãe continua atônita no mesmo lugar.

O vento livre na cara, a sensação de liberdade que o mundo oferece. Pela primeira vez na vida abre um sorriso pela manhã ao sair de casa. Após meia hora na rua sente o peso do mundo nas costas. Ele não parecia tão grande quando tudo ainda era uma idéia na sua cabeça. A idéia de fugir foi péssima, mas não pode dar para trás tão cedo. São os valores sociais tentando me reprimir, ele pensa, Dá pra viver sem esse bando de merda sim.

A cidade lhe traz más lembranças por todos os cantos que passa. O cine Odeon o faz lembrar dos sábados que saia com o pai para ir ao cinema. A falta do velho bate no peito dele pela primeira vez em anos e ali ele toma um novo impulso pela fuga. Dali segue para a rodoviária e compra uma passagem para Nossa Senhora das Rosas, uma cidade esquecida em algum canto do mapa brasileiro. O guichê chamou sua atenção, onde uma santa segurando uma cruz dourada com uma cruz no meio era a principal logomarca da empresa. A placa de “promoção passagem 20 reais” também teve sua importância.

Uma hora e meia para a viagem. Com esse tempo para matar o garoto come um croquete de carne com um refresco de caju e segue para a livraria. Passeio com os olhos a esmo, pega um livro aleatório e abre numa página qualquer:

“Quem enxerga e interpreta o mundo é você. Se as coisas acontecem do jeito que acontecem é por causa da sua interpretação. Se tudo é ruim é porque você interpreta assim. Nossa visão sobre o universo é pessoal e intransferível. Se existem 6 bilhões de pessoas no mundo, esses 6 bilhões de mundos diferentes.”

Com a cabeça em devaneios ele demora a terminar de ler. Vê o preço. 30 reais. Caro. Continua a passear pela loja, vê uma revista do Tio Patinhas e abre:

“Mas tio, como faremos para voltar para casa? O avião está quebrado e o capitão Bóing continua desacordado.”

“Daremos um jeito, Luisinho. Cadê o Asnésio?”

Onde tem um banheiro aqui, ele pensa, fechando a revista. Olha para as placas e se situa. 1,25 para mijar durante 3 minutos.

Filhos das putas, ele pensa, e dá o dinheiro a atendente.

Após a espera, matando o ócio com atividades beócias, ele finalmente embarca no ônibus. Apenas ele e mais 11 no ônibus, 12 com o motorista. As portas se fecham o ônibus fecha. Av. Brasil. Dutra. Rio-São Paulo. Passa a fronteira. Pela primeira vez na vida sai do Rio de Janeiro. Pela primeira vez na vida sai do estado.

Após 12 horas de viagem, com as carruagens de Helios já do outro lado do globo, o ônibus capota na BR-alguma coisa.

O garoto abre os olhos e está no hospital com as 12 pessoas nos leitos perto dele. 6 de um lado, sete de outro. Ele pisca.

Porque a vida não é como um romance do Kerouac, ele pensa, e chama a enfermeira.

E aqui começa a história do garoto. Não é de amor com a enfermeira, e sim de dor pós-operatória.

Diogo