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Semi-usado, 1.0, duas portas c/ ar condicionado

Primeiro senta-se confortavelmente no banco e encara-se o volante.

“De acordo com a segunda lei de Newton, a intensidade de uma força mecânica é resultado do produto entre uma aceleração e uma massa…” explica aos alunos o professor Joildo em mais uma manhã de sexta feira, onde todos os alunos só pensam em tocar a sineta para irem embora.

“Caralho, que porra é essa?” grita um estudante colado na janela. Imediatamente todos da sala se levantam para fazer o que acontece.

“Do que que você tá falando, João?” indaga uma menina procurando o que olhar. “Olha pra cima”, o garoto responde.

Tira-se então a chave do bolso.

Existem fatos que ocorreram ao longo da história que quem vivenciou não sabia da exata proporção daquele momento no futuro. No entanto, naquele momento todos dentro daquela sala sabiam que suas vidas, e de todos no planeta, haviam mudado. Várias naves redondas, de um material prateado, com luzes que piscavam esporadicamente, haviam pipocado no céu aquele dia. Por algum motivo os extra-terrestres haviam se escondido durante anos(ou já teriam aparecido antes, mas foram ocultados?) mas resolveram ligar o foda-se e cagaram na ordem das coisas, só para mudar a rotina, quem sabe?

“Porra, não quero morrer virgem” chorava o gordinho que sentava na frente da sala de aula. Quer hora melhor para se preocupar com cobranças da sociedade do que quando aparecem milhares de naves alienígenas no céu?

O inspetor aparece na porta da sala e diz para todos irem para casa. Um dos estudantes vira para o grupo de amigos e diz: “Vamos lá pra casa, a gente bebe pra caralho e vê no que isso vai dar. Qualquer coisa meu avô tem duas .38 e uma espingarda, a gente pega elas qualquer coisa e enfia bala nos Ets.”

Seguem então o garoto mais seus dois amigos, descendo as ruas e indo para casa, o lar sempre representando a segurança. Durante o trajeto veem pessoas correndo, umas gritando, pessoas chorando. Passam pela porta da igreja e assistem a bandos de pessoas rezando, pedindo ajuda. E durante todo o trajeto os Ufos prateados no céu, apenas parados, vigilantes. O que será que esperam? Será que o governo está em vias de algum acordo universal?

Prestes a chegarem em casa, um homem fica a rir e gritar na rua: “Os deuses voltaram, eles voltaram. Viva os Deuses”. Um homem então sai de um portão de vila, passa pelos garotos e começa a agredir o outro.

Com muita calma bota-se a chave na ignição.

Já passaram-se algumas horas desde que os garotos sairam da aula. Os pais do dono da casa ainda não chegaram, estão ambos parados num engarrafamento na Presidente Vargas. O garotos já consumiram uma garrafa de uisque, uma de Velho Barreiro e no chão encontram-se pacotes vazios de biscoitos, caixas de pizza, garrafas pet vazias. Os três estão na varanda, olhando uma nave que sobrevoa a favela, ouvindo noticias no rádio, apertando f5 a cada cinco minutos no notebook e dando olhadas esporadicas na televisão ligada logo atrás, na sala.

Sem aviso prévio um som grave começa a soar por toda a cidade, como se fosse uma buzina. O fundo da nave então abre-se, uma luz sai do buraco e começa a “sugar” os barracos no morro. O mesmo homem da vila que havia espancado o “profeta dos deuses” começa a correr na rua, com uma pistola em mãos, atirando para o alto. “Vai tomar no cú, bando de filho da puta.”

Os garotos olham aquilo e sentem medo no fundo das suas almas, mas tomados pelo mesmo impulso do homem da vila, pegam as armas e seguem para a rua. Como combaterão naves gigantes feitas por inteligências superiores, é outra história.

Gira-se então a chave na ignição. Dá-se partida nos motores do caos.